13 dezembro 2006

Hoje é dia de Mario

É dia de Mario Benedetti. Por indicação de Galeano com seu abraço sentipensante e de Emir "homenageando" póstumamente Pinochet.
Por razões que a própria razão desconhece e porque a história trata de prestigiarnos com causos que rechearão nossa memória para cultivarmos a memória das gerações futuras.

OBITUARIO CON HURRAS
Mario Benedetti
Vamos a festejarlo,
vengan todos
los inocentes
los damnificados
los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufen el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidanvamos a festejarlo,
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabo el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabo para siembre
hurra
que vengan todos,
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino,
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabo el monstruo prócer
se acabo para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que este
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo,
a no volver
nos flojos
a no olvidar que este
es un muerto de mierda.

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06 dezembro 2006

Vengo a oferecer mi corazon

Vengo a ofrecer mi corazon

Quien dijo que todo esta perdido,
Yo vengo a ofrecer mi corazon.
Tanta sangre que se llevo el rio
Yo vengo a ofrecer mi corazon.


No sera tan facil, ya se que pasa...
No sera tan simple como pensaba
Como abrir el pecho y sacar el alma
Una cuchillada de amor.


Luna de los pobres siempre abierta,
Yo vengo a ofrecer mi corazon
Como un documento inalterable
Yo vengo a ofrecer mi corazon


Y unire las puntas de un mismo lazo,
Y me ire tranquila, me ire despacio,
Y te dare todo y me daras algo ...
Algo que me alivie un poco mas.


Cuando no haya nadie cerca o lejos
Yo vengo a ofrecer mi corazon
Cuando los satelites no alcancen
Yo vengo a ofrecer mi corazon...


Y hablo de paises y de esperanzas,
Hablo por la vida, hablo por la nada
Hablo de cambiar esta nuestra casa
De cambiarla por cambiar nomas...


Quien dijo que todo esta perdido
Yo vengo a ofrecer mi corazon.

(mercedes sosa)


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03 setembro 2006

Cinema - "Chica tu madre"

filme de Gianfranco Quattrini

"[...] Chicha tu madre conta a história de um pai de família, Julio César (Jesús Aranda), que descobre que está para ser avô e, para dar um futuro seguro à sua filha, envolve-se em uma série de aventuras que o induzirão a se isolar e que o obrigarão a mudar de cidade.

Julio César é o monumento "à busca de uma solução", na qual vivem muitos latino-americanos. Obrigado a trair amigos e familiares por uma crise econômica que Quattrini nega-se a descrever como fenômeno global, o protagonista aguça a inventividade para resolver seus intrincados problemas financeiros; mas também para visitar os bordéis dos quais é assíduo e ardoroso freqüentador, inventar-se uma carreira de cartomante, cortar uma relação morta e enterrada com a sua esposa; ou criar uma nova relação com uma prostituta; negar a sua fama de pé-frio para o clube do qual é torcedor, que perde todos os jogos quando ele pisa no estádio e finalmente, apesar dos pesares, iniciar uma nova vida em Buenos Aires.

Quattrini demonstra um talento incomum ao dirigir o numeroso elenco que dá vida ao seu circo de personagens, cada qual, mesmo o mais insignificante, com uma personalidade bem desenhada e interpretada. Ele também se revela um narrador nato, capaz de criar um mundo vivo e crível que extrapola as fronteiras do país no qual se passa a ação, já que trama e protagonistas podem ser facilmente transportados para outros países em vias de desenvolvimento ou que passam por uma crise econômica, obrigando seus habitantes a aguçarem a inteligência.[...]"

* Site oficial www.chicatumadre.com . Muito bem produzido. A expectativa agora é vê-lo pelas bandas dos cinemas de cá!
**Nascido em Lima (Peru), criado em Chicago e formado na Argentina, onde estreou como ator e diretor de videoclipes, Quattrini dirigiu o seu primeiro curta, Aprendizaje, em 1994, e apresentou o seu primeiro média-metragem, Bosques, no festival de Locarno de 2005.

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27 agosto 2006

Um acontecimento histórico

por Boaventura de Sousa Santos

Freqüentemente, os acontecimentos históricos só são reconhecidos como tal muitos anos ou séculos depois. No tempo em que ocorrem, passam despercebidos porque o seu significado escapa aos critérios e interesses que definem a atualidade noticiosa. Enquanto esta se pauta pela realidade dominante e pelos significados constituídos, os acontecimentos históricos rompem com essa realidade e são portadores de significados emergentes, constituintes, destinados a fazer história em vez de a reproduzir.

Acabo de ter o privilégio de participar de um desses acontecimentos. Teve lugar entre 15 e 17 de Julho na cidade de Cusco, Peru, antiga capital do Império Inca, o umbigo do mundo, como lhe chamavam os Incas, a 3500 metros de altitude na Cordilheira dos Andes. Tratou-se do congresso fundacional da Coordenadora Andina das Organizações Indígenas do Peru, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Argentina. A conquista espanhola do final do século XV, além de dizimar os povos que habitavam estes territórios, destruir as suas cidades, monumentos, lugares sagrados e reprimir as suas culturas, usos e costumes, teve por efeito retalhar e separar as populações que restaram em unidades políticas diferentes que mais tarde, no século XIX, se transformaram nos diferentes países latino-americanos.

Os povos indígenas originários da região andina, quechuas, aymaras, mapuches e tantos outros, passaram a ser peruanos, bolivianos, equatorianos, chilenos, colombianos. O mesmo aconteceu com os povos da bacia amazônica e do resto da América do Sul e Central. As novas identidades nacionais nada tinham a ver com as identidades étnicas e culturais, uma situação muito semelhante à que viria a verificar-se depois em África. De todo o modo, as lutas de resistência dos povos indígenas contra a ocupação dos seus territórios, a pilhagem dos seus recursos e a supressão das suas culturas passaram a ter por marco de referência o Estado. A reivindicação principal sempre foi a de que os Estados ditos nacionais se deveriam reconhecer como plurinacionais, já que a única nação reconhecida como tal – a dos brancos e mestiços descendentes dos colonos – se alimentava da opressão colonial das diferentes nacionalidades originárias existentes no território. Aliás, esta opressão continuou depois da independência; até hoje, razão porque, para os povos indígenas, o colonialismos ainda não terminou.

No último quartel do século passado os movimentos indígenas lograram alguns êxitos assinaláveis: as constituições de vários Estados passaram a reconhecer a plurinacionalidade e a interculturalidade e, em conseqüência, vários direitos coletivos dos povos indígenas (auto-governo dos seus territórios; direito indígena; línguas e culturas indígenas). Foram, no entanto, em grande medida, vitórias aparentes, pois coincidiram com a investida do neoliberalismo no continente. Ou seja, no momento em que se criaram as condições para uma verdadeira coesão nacional, iniciou-se um violento e avassalador processo de desnacionalização dos Estados e das economias: liberalização do comércio, privatização, desregulação e cortes nas políticas sociais foram os nomes de guerra da (des)ordem neoliberal imposta pelos programas de ajustamento estrutural e, mais tarde, negociada, com a mão de ferro da diplomacia norte-americana, no âmbito dos tratados de livre comércio.

Com a nova política, os territórios indígenas e os seus recursos – o petróleo, a água, a biodiversidade, o gás natural, a madeira – ficaram à mercê das empresas multinacionais, operando simultaneamente em vários países. Tornou-se, então, evidente que uma nova versão do colonialismo estava em marcha, um colonialismo transnacional e conduzido por agentes econômicos muito poderosos com a conivência de Estados cúmplices e fracos ou enfraquecidos. Perante forças transnacionais, as lutas nacionais estariam votadas ao fracasso. Tornou-se, pois, imperiosa a necessidade de articular a resistência e propor alternativas a nível igualmente transnacional, uma necessidade que o Fórum Social Mundial veio sublinhar.

Foi então que os povos indígenas redescobriram o seu carácter transnacional originário – o serem quechuas ou aymaras antes de serem peruanos ou bolivianos – e resolveram pô-lo ao serviço da constituição de um novo sujeito e de uma nova acção política internacional plasmados numa agenda política andina a ser prosseguida, tanto nas instâncias internacionais, como em cada um dos Estados andinos. 514 anos depois da conquista, os povos indígenas andinos reassumiram o que eram antes de as fronteiras nacionais os terem retalhado. Como dizia o líder equatoriano, Humberto Cholango, “com a Coordenadora Andina o condor [a ave sagrada dos Incas] pode voltar a voar”.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

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25 agosto 2006

ESPECIAL - Conferência da Clacso - 2

Crise da democracia pede soluções "latinas" e estruturais
por Maurício Hashizume - Carta Maior

RIO DE JANEIRO – O remédio para o esvaziamento de conteúdo da democracia liberal na América Latina e no Caribe é composto por substâncias e formulações caseiras que despontam no próprio continente. Quem assina a receita médica é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra. Mesmo com todos os vícios e limites, os povos latino-americanos têm logrado fazer um “uso contra-hegemônico de uma democracia hegemônica”, aumentando o grau de intensidade das democracias e, em certa medida, transformando os problemáticos processos representativos em solução.

A reivindicação de ser igual mantendo as diferenças e o impulso à questão da interculturalidade não está em nenhum clássico europeu. Exemplos disso, segundo Sousa Santos, são a formação da Coordenadora Andina das Organizações Indígenas do Peru, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Argentina, que une povos das etnias Aymara, Kichwas, Quéchua e Mapuche e outros. Povos, aliás, originariamente transnacionais que foram cindidos pela colonização. Outros episódios recentes de grandes mobilizações populares foram as mobilizações no Equador contra o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA e a presença da transnacional exploradora de petróleo Occidental (Oxy), sem contar as vitórias eleitorais na Bolívia, com Evo Morales e as iniciativas populares que mantiveram Hugo Chávez como presidente da Venezuela. Algumas dessas erupções são quase invisíveis e não fazem parte da gramática dos “mausoléus da esquerda européia”.

“A América Latina é hoje o centro da resistência do capitalismo global”, disparou Sousa Santos para um auditório repleto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) durante seminário sobre a reinvenção da democracia na IV Conferência Latino-Americana de Ciências Sociais. Nesse contexto, ele apontou a relevância da articulação entre capitalismo e colonialismo. Basta notar que os países do centro – que chegaram a supor que a brutalidade do sistema só desabaria sobre os outros - estão preocupados com duas ameaças hoje: o imigrante e o terrorista. O último 1º de maio nos EUA foi sintomático, com massivas manifestações de rua de imigrantes de uma determinada classe social defendendo as suas próprias identidades latinas.

O protagonismo dos povos da região deve, portanto, “mostrar os limites dessa democracia liberal”, nas palavras do sociólogo, funcionando como água no moinhopara gerar cada vez mais tensão. “Na prática, a democracia liberal é inviável. A igualdade jurídica e política em que se assenta não faz sentido”. Somada ao aumento brutal da desigualdade (“ilhas de igualdade num oceano de despotismo”), a falência da democracia liberal é uma decorrência do próprio liberalismo econômico. Como projetos políticos e ideologias não tem preço – e só o que tem preço tem valor – o ritual democrático perdeu prestígio na sociedade.

Mesmo com todo esse entusiasmo, Sousa Santos se define como um “otimista trágico”. Explica-se: para ele, os povos indígenas do continente serão os novos alvos do imperialismo. Existe uma estreita relação econômica e geopolítica direta entre os recursos naturais (água, madeira, petróleo) – a ancestral Pacha Mama dos indígenas – com a estratégia de “segurança nacional e combate ao terrorismo” dos Estados Unidos. Muitos líderes no Peru e no Chile, conta o prestigiado intelectual, foram incriminados como terroristas por ter fechado estradas em seus respectivos territórios. O processo de militarização da Amazônia também sustenta essa trágica previsão.

Definição geopolítica
A proposta de um novo conceito para a democracia foi apresentada por Luiz Tapia, da Universidade de San Andres, em La Paz (Bolívia), durante o mesmo seminário. Primeiro, ele sublinha que a forma de organização popular tradicional na América Latina nunca se deu em partidos políticos e defende a adoção de formas mais originais de autogoverno. Em segundo lugar, o acadêmico contesta a contradição existente nesse formato único de organização de origem anglo-saxã em que a democracia interna convive naturalmente com o imperialismo internacional. “Quem utiliza a violência contra os outros países não é democrático”, defende.

Hoje, segundo ele, a democracia é definida mais por um método que “define o todo pela parte”: direito de ser eleito, direito a voto, acesso a fontes diversas de informação, condição de exercer o poder, etc. “Democracia não é só para governar, mas para atacar a desigualdade”. A igualdade viria justamente da prática do co-governo institucional, em formas organizativas com base na pluralidade.

Tapia propõe uma relação de intergovernabilidade baseado na condição de igualdade com outros governos que se autogovernam para caracterizar a democracia, em substituição a qualquer outra relação de viés autoritário. Para ele, órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA) são formas de intergovernabilidade que reforçam a relação de dominação entre os povos.

Democracia e capitalismo
“O capitalismo é inexoravelmente antidemocrático”, avaliou Atilio Boron, secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). O verdadeiro apartheid social quer resulta do capitalismo está esvaziando a democracia, que nada mais é que um reflexo histórico do estágio de pilhagem em que vivemos. “Como nossos povos podem desfrutar da liberdade da ordem democrática se muitas vezes não tem sequer dinheiro para pagar o transporte para procurar trabalho”. Ele defende transformações profundas para transformas as “plutocracias e oligarquias” continuam a vigorar.

Para sustentar sua tese, Boron citou pesquisa com líderes políticos (autoridades em postos estratégicos) que revelou que 80% deles apontam os grandes empresários e o setor financeiro como os verdadeiros donos do poder. Em segundo lugar na escala de preponderância em decisões, vieram os meios de comunicação.

A reinvenção da democracia, para a historiadora Virgínia Fontes, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também está vinculada com a reprodução do capital. Ela desenvolve uma linha de pesquisa que questiona a noção de fim do trabalho, sustenta a efetividade do Estado (para o funcionamento do esquema) e identifica o imperialismo não apenas na relação entre os países, mas também está nas relações classistas internas. “Não tem lado de fora na exploração capitalista”, argumenta. O processo de independência e formação dos Estados nacionais definiu uma forma de representação política “colonial-nativista”, salientou Virgínia durante o mesmo seminário. O sufrágio universal, como pontuara o historiador Eric Hobsbawn, também domesticou a capacidade subversiva e forjou cidadãos do mundo (livres de amarras, valores e identidades). Essas novas formas organizativas cristalizaram a relação subalterna sem que seja necessário que o explorado esteja no mesmo espaço do explorador. O Estado assumiu o papel de garantidor internacional dos direitos do capitalismo neoliberal ao sustentar mecanismos de filantropia/coerção e descartar a inclusão por meio do trabalho, principal forma de igualdade e democratização.

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ESPECIAL - Conferência da Clacso - 1

Emancipação requer união entre demandas étnicas e de classe
por Maurício Hashizume - Agência Carta Maior

RIO DE JANEIRO – Por trás da tragédia social concreta e diária do modelo neoliberal – que consome vidas tanto nas violentas ruas das metrópoles como nos rincões rurais e nega direitos humanos básicos a seres humanos - existe uma batalha ideológica fundamental que vem sendo travada entre intelectuais da América Latina e do Caribe. Levantes populares em diversos países – México, Bolívia, Equador, Venezuela, Argentina, entre outros – despertaram a atenção de estudiosos para uma questão complexa e fundamental que ocupa um espaço cada vez mais privilegiado nas discussões continentais. A relação entre a emergência da afirmação das identidades dos povos originários com as demandas econômicas, sociais e políticas do conjunto das populações mereceu destaque durante a IV Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais, organizada pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) na capital fluminense.

O caso do Equador pode servir de termômetro para aferir o grau de complexidade do tema. A pesquisadora Ana Maria Larrea, do Instituo de Estudos Equatorianos (IEE), apresentou algumas os dilemas da construção de um projeto político que possa conjugar a questão étnica com o recorte de classe social. Administrações locais do Pachakutik - a representação política dos movimentos indígenas equatorianos - não conseguiram efetivar a interculturalidade na prática e as estruturas do Estado não foram transformadas, pontuou Ana Maria durante o painel “Neoliberalimo e conflito na América Latina: os movimentos sociais e os desafios emancipatórios”, ocorrido nesta segunda-feira (21). A experiência do Equador mostra como permanece em aberto a definição da articulação necessária para combinar a questão estrutural com o componente cultural.

O governo de Evo Morales, do Movimento Al Socialismo (MAS) na Bolívia não é exclusivamente indígena, mas de superação da agenda colonial, assevera o boliviano Carlos Vacaflores, da Comunidade de Estudos Jaina-Tarija. O país, segundo ele, vive dividido entre essa e outra agenda – a da elite tradicional boliviana – que carrega agora a bandeira das autonomias regionais.

Para Edgardo Lander, professor de ciência política da Universidade Central da Venezuela (UCV) , o contexto atual de mercantilização e de guerra permanente – que destrói diretamente as condições materiais de sobrevivência humana - não permite desligar a questão da autonomia dos povos com a disputa pelo poder. Ele chama atenção também para a heterogeneidade dos movimentos sociais latino-americanos, com formas organizativas completamente diferentes.

A continuidade do “capitalismo dependente” (definição do falecido sociólogo Florestan Fernandes) na América Latina e Caribe, de acordo com Roberto Leher, do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), está assentada em três grandes eixos: a ofensiva ideológica pelos meios de comunicação; a gestão da pobreza e o controle social dos movimentos sociais. Ele defende a articulação de um “síntese convocatória superior” às já existentes no Brasil que possa unir as bases dos movimentos sociais na luta pela emancipação.

Na opinião de Ana Ester Ceceña, da Universidade Autônoma do México (Unam), é necessário que, antes de mais nada, o próprio neoliberalismo seja desvendado. Na visão dela, trata-se de uma estratégia – certas modalidades que reorganizam o sistema para reforçar a hegemonia dos EUA – de reprodução do capitalismo. “Não é nem uma nova fase”, adiciona. No entanto, a identificação dos problemas e os desafios da emancipação são muito variados. Dentro da dimensão econômica, poder-se-ia dizer que as corporações transnacionais são o principal problema. De outro ponto de vista, o poderio militar também pode ser considerado o problema. “Ambos fazem parte do mesmo núcleo. São diferentes formas de manifestação para controlar a população mundial. Por isso, é preciso enfrentar a batalha do pensamento, das concepções”.

“A repetição da história do capitalismo não nos fará sair do capitalismo”, defende Ceceña. Para ela, é preciso recuperar outras histórias e processos distintos próprios de organização política. Por isso, para pensar a relação entre movimentos sociais e a política institucional, ela indica três canais: pensar o mundo de um modo diferente, criar novas maneiras de fazer política e desinstitucionalizar o poder.

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