05 julho 2007

Êêê... vida de gado!!!

Enquanto a grande mídia [e a pequena também] preocupa-se com as vacas de Renam, os parlamentares encaminham a vaca da Reforma Política pro brejo... Êêê... vide da gado!!!
T[r]eta? Muuuh!!!


Tudo como dantes. Ou pior.
por Valter Pomar e Iriny Lopes

A maioria da Câmara dos Deputados derrotou o sistema de voto em lista fechada. Rejeitou, noutra votação, o sistema de voto denominado “flexível”.
Como decorrência desta dupla votação, o financiamento público das campanhas eleitorais fica prejudicado. Mesmo que alguns digam que uma coisa (financiamento público) não implica na outra (voto em lista), a verdade é que sem voto em lista (fechada ou flexível), a introdução do financiamento público tornar-se-ia uma aberração.
Ou estaríamos misturando financiamento privado com financiamento público; ou estaríamos destinando dinheiro público a campanhas individuais, feitas com base no sistema nominal.
Já a proposta, que conta com apoio na bancada do PT, de garantir financiamento público para candidaturas majoritárias, liberando o financiamento privado apenas para candidaturas proporcionais, pode ter como efeito colateral aumentar os recursos disponíveis para que empresas privadas corrompam parlamentares.
O resultado da votação na Câmara dos Deputados confirma, mais uma vez, a incapacidade que o atual Congresso tem de reformar-se, mesmo que minimamente. E reforça a idéia de que apenas uma Constituinte exclusiva será capaz de fazer uma reforma política e as outras mudanças institucionais que o país precisa.
Reforça, ainda, uma obviedade: sem pressão popular, não há mudanças progressistas.
A votação na Câmara revela, ademais, que a “coalizão de governo” não serve para dar governabilidade, ao menos quando se trata de implementar mudanças no status quo. Mesmo que o governo tivesse se empenhado mais na votação, ainda assim o resultado não teria sido muito diferente. A verdade é que, entre os partidos que integram a coalizão, há um segmento conservador cujo compromisso com o governo Lula é limitado aos “bônus”. Aí está, para demonstrar isto, os casos da emenda 3 e da desapropriação de terras onde há trabalho escravo.
A derrota do voto em lista e a provável derrota do financiamento público reafirmam, ademais, o óbvio: quando o PT se divide, a derrota é certa, ao menos quando estão em jogo os interesses democráticos e populares.
Nesse sentido, é preciso deixar bem claro: os parlamentares petistas que defenderam publicamente o financiamento privado e o voto nominal, qualquer que tenha sido o seu comportamento objetivo no processo de negociação e durante as votações, ajudaram a derrotar uma reforma progressista.
O que muda pós-derrota? Na melhor das hipóteses, nada. E isto já é extremamente grave.
Pois se tudo continua como dantes, então continuará vigente o atual sistema, de financiamento privado (ou seja, de corrupção institucionalizada); a política, os políticos e os legislativos continuarão, aos olhos de parcela importante da população, numa espiral de desmoralização; as forças de direita continuarão tendo maiores chances de manter sua hegemonia nos parlamentos; os partidos de esquerda continuarão submetidos a dupla pressão da fragmentação (cada mandato, um pequeno partido) e da corrupção.
Na pior das hipóteses, podemos assistir a uma mudança para pior. Pois a derrota do voto em lista abre espaço para uma reforma política reacionária (com introdução do voto distrital e facultativo).
Num caso ou noutro, fechou-se o que seria o caminho mais fácil, para quem pretendia aumentar a democracia, favorecer uma governabilidade pró-mudanças, alterar a correlação de força dos parlamentos e ajudar numa vitória da esquerda em 2008 e 2010.
Agora, mesmo para os maiores entusiastas da via exclusivamente institucional, fica cada vez mais claro que é prioritário investir na organização do PT, na retomada dos laços com os demais setores da esquerda política e social, na organização e mobilização das camadas populares, no deslocamento para a esquerda do governo Lula.
Esperamos que esta caminho seja consagrado no terceiro congresso do Partido.
Leia mais aqui.
Fonte : Mago ;)

Marcadores:

22 maio 2007

DesEmenda


Amanhã, 23 de maio, o movimeto sindical e os movimentos sociais mobilizarão trabalhadoras e trabalhadores em todo o país para manifestações públicas contra a emenda 3, contra os projetos de lei que extinguem o direito de greve, em defesa da previdência pública e universal, da reforma agrária e da política agrária, pela educação pública.
A emenda 3 arrebenta com os direitos trabalhistas ao legalizar e instituir uma nova relação entre empresários e trabalhadores passando estes últimos à categoria de prestadores de serviço (micro-empresas ambulantes, pseudo-empreendedores de si mesmo) destituidos de quaisquer direitos : FGTS, vale-refeição, vale-transporte, 13. salário, férias, etc.
Rauzito ficou ultrapassado : "a solução é alugar o Brasil ... 'nós não vamos pagar nada! é tudo free'...'vamo embora dar lugar pros gringo entrar, porque esse imóvel tá pra alugar ". Alugam-se não mais os imóveis, que foram vendidos a preço de banana com dinheiro emprestado por nós mesmos e com parcelamento à perder de vista; alugam-se trabalhadoras e trabalhadores!!!
Mas informações no site da CUT

Marcadores:

01 março 2007

Companheiro Bush

Na próxima semana o Brasil receberá a visita 'ilustre' do 'companheiro' Bush!
Ao ler essa notícia e logo depois o editorial 'Por que o Irã não pode?' no Correio da Cidadania lembrei de Tom Zé e sua inspirada composição "Companheiro Bush" de 2003 - ano do início da Guerra do Iraque - que define perfeitamente o motivo dessa barbárie. Porque tirania por tirania os poderosos do mundo só acatam as balizadas pela ONU!!!
Massa seria espalharmos rádios-poste por todos os caminhos do presidente norte americano no Brasil tocando essa música sem parar. Excelente plano de retribuição de gentilezas, não?!
Vai sonhando, Amanda. Vai...

Companheiro Bush

Se você já sabe
Quem vendeu
Aquela bomba pro Iraque,
Desembuche:
Eu desconfio que foi o Bush.

Foi o Bush,
Foi o Bush,
Foi o Bush.

Onde haverá um recurso
Para dar um bom repuxo
No companheiro Bush?

Quem arranja um alicate
Que acerte aquela fase
Ou corrija aquele fuso?

Talvez um parafuso
Que tá faltando nele
Melhore aquele abuso.

Um chip que desligue
Aquele terremoto,
Aquela coqueluche.

Baixe a música em mp3 por aqui

Marcadores: ,

24 janeiro 2007

infame verdade ou 'no buraco dos outros é refresco'

Sendo uma infame que preza por sua infamidade eu não poderia passar sem postar essa aqui!
E apesar do tom homofóbico - perdoem - não podia deixar de sugerir o título acima... Foi mais forte que eu.

O choque de gestão foi para o buraco
por Luiz Antônio Magalhães

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) reapareceu ontem para anunciar o seu apoio ao candidato tucano à presidência da Câmara, deputado Gustavo Fruet (PR). Desta vez, porém, Alckmin preferiu não convocar uma entrevista coletiva e divulgou a sua posição por meio de nota oficial. O candidato derrotado do PSDB à presidência teve tempo para redigir a carta sobre Fruet, mas até agora não disse palavra sobre a tragédia ocorrida no canteiro de obras da linha amarela do Metrô em São Paulo.

Ao que parece, Alckmin pretende ficar longe dos mortos da rua Capri e deixar para o seu sucessor e correligionário José Serra o desgaste que a tragédia certamente vai causar. Para dizer o mínimo, é uma atitude mesquinha. Afinal, Alckmin é o pai da criança e foi durante a sua gestão que o contrato celebrado entre o consórcio de empreiteiras e o governo do Estado foi assinado. O mínimo que se espera de alguém com hombridade para assumir responsabilidades é que pelo menos dê a sua versão sobre o acontecimento.
O problema, porém, não se restringe à figura do ex-governador. É todo um discurso e um jeito de governar que foi soterrado junto com os corpos de inocentes na rua Capri. Não se trata aqui de questionar a culpa ou a responsabilidade pela tragédia – que serão esclarecidas ao fim das investigações já em curso –, mas observar a distância entre o que dizem os políticos do PSDB e a realidade dos fatos. Durante a campanha do ano passado, Alckmin tentou vender a imagem do bom gerente, do líder capaz de fazer o país acelerar sem mudar a política econômica, aplicando o tal “choque de gestão” e implantando “modernas” técnicas gerenciais na administração pública, como se os problemas nacionais se restringissem a tecnicalidades e não fossem de natureza estrutural e, portanto, política.
O choque de gestão do tucanato ficou explícito no desmoronamento da rua Capri: falta de plano de emergência, imprudência, total ausência de fiscalização do poder público na obra e, até agora, 6 mortes confirmadas. Junto com os ataques do PCC em 15 de maio, a cratera da rua Capri já é um símbolo do desgoverno do PSDB em São Paulo.

Fonte : Correio da Cidadania

Marcadores:

27 agosto 2006

Um acontecimento histórico

por Boaventura de Sousa Santos

Freqüentemente, os acontecimentos históricos só são reconhecidos como tal muitos anos ou séculos depois. No tempo em que ocorrem, passam despercebidos porque o seu significado escapa aos critérios e interesses que definem a atualidade noticiosa. Enquanto esta se pauta pela realidade dominante e pelos significados constituídos, os acontecimentos históricos rompem com essa realidade e são portadores de significados emergentes, constituintes, destinados a fazer história em vez de a reproduzir.

Acabo de ter o privilégio de participar de um desses acontecimentos. Teve lugar entre 15 e 17 de Julho na cidade de Cusco, Peru, antiga capital do Império Inca, o umbigo do mundo, como lhe chamavam os Incas, a 3500 metros de altitude na Cordilheira dos Andes. Tratou-se do congresso fundacional da Coordenadora Andina das Organizações Indígenas do Peru, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Argentina. A conquista espanhola do final do século XV, além de dizimar os povos que habitavam estes territórios, destruir as suas cidades, monumentos, lugares sagrados e reprimir as suas culturas, usos e costumes, teve por efeito retalhar e separar as populações que restaram em unidades políticas diferentes que mais tarde, no século XIX, se transformaram nos diferentes países latino-americanos.

Os povos indígenas originários da região andina, quechuas, aymaras, mapuches e tantos outros, passaram a ser peruanos, bolivianos, equatorianos, chilenos, colombianos. O mesmo aconteceu com os povos da bacia amazônica e do resto da América do Sul e Central. As novas identidades nacionais nada tinham a ver com as identidades étnicas e culturais, uma situação muito semelhante à que viria a verificar-se depois em África. De todo o modo, as lutas de resistência dos povos indígenas contra a ocupação dos seus territórios, a pilhagem dos seus recursos e a supressão das suas culturas passaram a ter por marco de referência o Estado. A reivindicação principal sempre foi a de que os Estados ditos nacionais se deveriam reconhecer como plurinacionais, já que a única nação reconhecida como tal – a dos brancos e mestiços descendentes dos colonos – se alimentava da opressão colonial das diferentes nacionalidades originárias existentes no território. Aliás, esta opressão continuou depois da independência; até hoje, razão porque, para os povos indígenas, o colonialismos ainda não terminou.

No último quartel do século passado os movimentos indígenas lograram alguns êxitos assinaláveis: as constituições de vários Estados passaram a reconhecer a plurinacionalidade e a interculturalidade e, em conseqüência, vários direitos coletivos dos povos indígenas (auto-governo dos seus territórios; direito indígena; línguas e culturas indígenas). Foram, no entanto, em grande medida, vitórias aparentes, pois coincidiram com a investida do neoliberalismo no continente. Ou seja, no momento em que se criaram as condições para uma verdadeira coesão nacional, iniciou-se um violento e avassalador processo de desnacionalização dos Estados e das economias: liberalização do comércio, privatização, desregulação e cortes nas políticas sociais foram os nomes de guerra da (des)ordem neoliberal imposta pelos programas de ajustamento estrutural e, mais tarde, negociada, com a mão de ferro da diplomacia norte-americana, no âmbito dos tratados de livre comércio.

Com a nova política, os territórios indígenas e os seus recursos – o petróleo, a água, a biodiversidade, o gás natural, a madeira – ficaram à mercê das empresas multinacionais, operando simultaneamente em vários países. Tornou-se, então, evidente que uma nova versão do colonialismo estava em marcha, um colonialismo transnacional e conduzido por agentes econômicos muito poderosos com a conivência de Estados cúmplices e fracos ou enfraquecidos. Perante forças transnacionais, as lutas nacionais estariam votadas ao fracasso. Tornou-se, pois, imperiosa a necessidade de articular a resistência e propor alternativas a nível igualmente transnacional, uma necessidade que o Fórum Social Mundial veio sublinhar.

Foi então que os povos indígenas redescobriram o seu carácter transnacional originário – o serem quechuas ou aymaras antes de serem peruanos ou bolivianos – e resolveram pô-lo ao serviço da constituição de um novo sujeito e de uma nova acção política internacional plasmados numa agenda política andina a ser prosseguida, tanto nas instâncias internacionais, como em cada um dos Estados andinos. 514 anos depois da conquista, os povos indígenas andinos reassumiram o que eram antes de as fronteiras nacionais os terem retalhado. Como dizia o líder equatoriano, Humberto Cholango, “com a Coordenadora Andina o condor [a ave sagrada dos Incas] pode voltar a voar”.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Marcadores: ,

22 agosto 2006

Salva-vidas de chumbo

Salva-vidas de chumbo
16/08/2006
Por Eduardo Galeano*

Pelo que diz a voz de comando, nossos países devem acreditar na liberdade do comércio (embora ela não exista), honrar os compromissos (embora eles sejam desonrosos), atrair investimentos (embora eles sejam indignos) e ingressar no cenário internacional (embora pela porta dos fundos).

Ingressar no cenário internacional: o cenário internacional é o mercado. O mercado mundial, onde compram-se países. Nada de novo. A América Latina nasceu para obedecê-lo, quando o mercado mundial nem era chamado assim, e de um jeito ou de outro continuamos atados ao dever de obediência.

Esta triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata, e continuou com o açúcar, o tabaco, o guano, o salitre, o cobre, o estanho, a borracha, o cacau, a banana, o café, o petróleo... O que esses esplendores nos deixaram? Nos deixaram sem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas apodrecidas, longas caravanas de infelizes condenados à morte antecipada, palácios vazios onde perambulam fantasmas...

Agora, chegou a vez da soja transgênica e da celulose. E outra vez repete-se a história das glórias fugazes, que ao som de seus clarins nos anunciam longas tristezas.
***
Será que o passado ficou mudo?

Nós nos negamos a escutar as vozes que nos alertam: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o seqüestro dos bens naturais que Deus, ou o Diabo, nos deu, e assim trabalhamos pela nossa própria perdição e contribuímos para o extermínio da pouca natureza que nos resta neste mundo.Argentina, Brasil e outros países latino-americanos estão vivendo a febre da soja transgênica. Preços tentadores, rendimentos multiplicados.

A Argentina é, e já faz tempo, o segundo maior produtor mundial de transgênicos, depois dos Estados Unidos. No Brasil, o governo de Lula executou uma dessas piruetas que pouco favor fazem à democracia, e disse sim à soja transgênica, embora seu partido tenha dito não durante toda a campanha eleitoral.

Isso é pão hoje e fome amanhã, como denunciam alguns sindicatos rurais e organizações ecologistas. Mas já sabemos que os peões ignorantes se negam a entender as vantagens do pasto de plástico e da vaca a motor, e que os ecologistas são uns estraga-prazeres que não dizem coisa-com-coisa.

***
Os advogados dos transgênicos afirmam que não está provado que prejudiquem a saúde humana. Em todo caso, também não está provado que não a prejudiquem. E já que são assim tão inofensivos, por que os fabricantes de soja transgênica se negam a esclarecer, nas embalagens, que vendem o que vendem? A etiqueta de soja transgênica não seria sua melhor publicidade?

Acontece que existem evidências de que estas invenções do Doutor Frankenstein fazem mal à saúde do solo e reduzem a soberania nacional. Exportamos soja ou exportamos solo? Estamos ou não estamos presos nas gaiolas da Monsanto e de outras grandes empresas de cujas sementes, herbicidas e pesticidas passamos a depender?

Terras que produziam de tudo para o mercado local agora se consagram a um único produto para a demanda estrangeira. Nós nos desenvolvemos para fora e nos esquecemos de dentro. O mono-cultivo é uma prisão, sempre foi, e agora, com os transgênicos, é muito mais. A diversidade, por sua vez, liberta. A independência se reduz ao hino e à bandeira, se a soberania alimentar não é assentada. A autodeterminação começa pela boca. Só a diversidade produtiva pode nos defender das súbitas despencadas de preços que são costume, mortífero costume, do mercado mundial.

As imensas extensões destinadas à soja transgênica estão arrasando os bosques nativos e expulsando os camponeses pobres. Poucos braços ocupam essas explorações altamente mecanizadas, que ao mesmo tempo exterminam as plantações pequenas e as hortas familiares com os venenos que fumigam. Multiplica-se o êxodo rural às grandes cidades, onde se supõe que os expulsos vão consumir, se tiverem sorte, o que antes produziam. É a agrária reforma: a reforma agrária pelo avesso.
***
A celulose também está na moda, em vários países.

Agora, o Uruguai está querendo se transformar num centro mundial de produção de celulose para abastecer de matéria prima barata as longínquas fábricas de papel.

Trata-se de monocultivos para a exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser bosques e se convertem em celulose num processo industrial que arroja detritos químicos nos rios e torna o ar irrespirável.

No Uruguai, começaram por duas fábricas enormes, uma das quais já está a meio construir. Depois surgiu outro projeto, e já se fala de outro, e outro mais, enquanto mais e mais hectares estão sendo destinados à fabricação de eucaliptos em série. As grandes empresas internacionais nos descobriram no mapa do mundo, e caíram de súbito amor por este Uruguai onde não há tecnologia capaz de controlá-las, o estado outorga subsídios e evita impostos, os salários são raquíticos e as árvores brotam num piscar de olhos.

Tudo indica que nosso país, pequenino, não irá agüentar o asfixiante abraço desses grandalhões. Como costuma acontecer, as bênçãos da natureza se transformam em maldições da história. Nossos eucaliptos crescem dez vezes mais depressa que os da Finlândia, e isso se traduz assim: as plantações industriais serão dez vezes mais devastadoras. No ritmo de produção previsto, boa parte do território nacional está sendo espremida até a última gota de água. Os gigantes sedentos vão secar nosso solo e nosso subsolo.

Trágico paradoxo: este país foi o único lugar do mundo em que a propriedade da água foi submetida a plebiscito popular. Por esmagadora maioria, os uruguaios decidiram, em 2004, que a água seria propriedade pública. Não haverá maneira de evitar o seqüestro dessa vontade popular?
***
A celulose, é preciso reconhecer, transformou-se em algo assim como uma causa patriótica, e a defesa da natureza não desperta entusiasmo. Pior: em nosso país, algumas palavras que não eram palavrões, como ecologista e ambientalista, estão se transformando em insultos que crucificam os inimigos do progresso e os sabotadores do trabalho.

Celebra-se a desgraça como se fosse boa notícia. Mais vale morrer de contaminação do que morrer de fome: muitos desempregados acreditam que não existe outro remédio além de escolher entre duas calamidades, e os mercadores de ilusões desembarcam oferecendo milhares e milhares de empregos. Acontece que uma coisa é a publicidade, e outra é a realidade. O MST, movimento dos camponeses sem terra, divulgou dados eloqüentes, e que não valem apenas para o Brasil: a celulose gera um emprego a cada 185 hectares, e a agricultura familiar cria cinco empregos a cada dez hectares.

As empresas prometem o melhor. Trabalho a rodo, investimentos milionários, controles rígidos, ar puro, água limpa, terra intacta. E eu me pergunto: já que é assim, por que não instalam essas maravilhas em Punta del Este, para melhorar a qualidade de vida e estimular o turismo em nosso balneário principal?

Publicado em www.mst.org.br
*Eduardo Galeano nasceu no Uruguai. É jornalista e escritor. Escreveu, entre outros, O Século do Vento, As Caras e as Máscaras, Os Nascimentos, O Futebol ao sol e à sombra, O Livro dos Abraços, Dias e noites de amor e de guerra e o célebre As Veias Abertas.

Marcadores:

21 agosto 2006

Mafalda - "Anda com uma cara, o infeliz..."

Marcadores:

20 agosto 2006

Eleições 2006

Falar de saúde, educação e segurança não é fazer programa de governo
Gilberto Maringoni

Sempre que começa uma campanha eleitoral, a imprensa, as páginas de notícias da internet e o horário eleitoral arvoram-se em procurar detalhar o “programa” dos diversos candidatos. Por programa entende-se, nestes casos, o que cada um fará nas áreas mais sensíveis da administração pública, como saúde, educação, transportes, segurança etc. etc. Todos têm propostas para tudo.

Funciona mais ou menos assim. Na saúde teremos policlínicas integradas com pronto-socorro vinculado à pediatria computadorizada, que alimentará um banco de dados centralizado com o objetivo de cruzar os diagnósticos de toda a cidade, fornecendo assim toda a informação necessária ao tratamento preventivo de várias enfermidades. Ou ainda unidades móveis de atendimento, para recuperar o conceito do médico de família, com atenção personalizada em qualquer região. Na educação, a progressão descontinuada, somada aos modernos métodos de avaliação e pontuação, aliados à cursos de informática e gerenciamento de merenda facultarão a cada estudante a bolsa-escola, a bolsa creche, a bolsa-família e a bolsa-bolsa. Para a área de transportes, nossa proposta é realmente revolucionária. Vamos colocar os carros circulando nos túneis do metrô, onde não há trânsito e vamos colocar o metrô – que sabidamente alivia o tráfego – nas ruas, para reduzir o número de veículos em circulação. Etc. etc. etc....

Parece que isso tudo é programa, mas não é. Apresenta-se ao eleitor um rosário de pequenas idéias engenhosas e o cidadão acha que estão ali, na sua frente, discutindo projetos para sua cidade e seu país. Não estão.

O essencial é invisível aos ouvidos
A melhor maneira de se evitar falar do essencial não é ficar quieto. É falar de tudo o que é secundário, sem estabelecer ligações e conexões entre as coisas. Tudo é verdade, policlínicas são legais, metrô desafoga trânsito e escolas modernas apresentam vantagens. Mas são idéias parciais, meias-idéias, que parecem viáveis. Basta estilhaçar as informações e apresentá-las como se não fizessem parte do mesmo planeta ou cidade, para desorientar qualquer um. Não há interesses a serem contrariados ou favorecidos. Como são sugestões soltas, volta e meia aparece um candidato alegando ter sido plagiado por outro. O que se apresenta como programa político não é programa e muito menos é algo político. É aplicar a marquetagem com o propósito de entreter o público, enquanto os negócios seguem em frente.

O debate sobre segurança pública é, de todos, talvez o que mais se ressinta dos males da fragmentação. O país vive uma situação de caos na área e os programas das candidaturas, com poucas exceções, não passam da cantilena de “leis mais duras”, “mais energia”, “mais presídios”, “rota na rua” e lorotas do tipo. Não se faz uma ligação com o fato do país não crescer há 25 anos, com uma das piores distribuições de renda e de riqueza do mundo e incapaz de gerar empregos suficientes para absorver a juventude que ano a ano chega ao mercado de trabalho.

Haverá dinheiro para cumprir tais e quais promessas? Mantida a atual lógica de financiamento do Estado, é claro que não. Com a ditadura das sucessivas equipes econômicas sobre o orçamento público, não há como criar novos programas ou realizar ações prometidas em campanha.

O irônico é que o financiamento é justamente o ponto cego das campanhas. Para responder à pergunta “de onde virá o dinheiro?”, é preciso discutir economia e política econômica. Sobre isso, a maioria dos candidatos silencia (justiça seja feita, o segundo programa eleitoral de televisão da senadora Heloísa Helena foi todo dedicado ao tema).De nada adianta prometer, se 40% do orçamento público é anualmente seqüestrado para a consolidação do superávit primário, que garante a rentabilidade dos títulos da dívida pública para os especuladores de pequeno e de grande calado. Os caminhos e descaminhos dessa enormidade de dinheiro que, somado aos pagamentos de juros e serviços da dívida financeira, chega a R$ 160 bilhões ao ano, são determinados pela equipe econômica que a todos governa.

O ministério de tudo
Quem manda e desmanda no país, quem faz e desfaz políticas sociais e de investimento são os senhores do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Este time é responsável não apenas pelas questões diretamente afeitas à sua alçada – moeda, câmbio, juros e afins – mas por quanto de reforma agrária poderá ser feita, quanto de remédios será possível comprar para os hospitais públicos e por aí vai. Quem faz política social no Brasil é a equipe econômica.

Desde que as tais equipes econômicas ganharam proeminência na vida brasileira, a partir de 1990, estamos submetidos a uma espécie de ditadura. Com o auxílio da maioria da imprensa, impediu-se o debate de alternativas, reforçado pelo fato de que os quatro presidentes que chegaram ao Planalto a partir de então mantiveram a mesma orientação. Aparentemente vive-se um clima de total liberdade de expressão no país, em que a opinião contrária é sempre desqualificada ou encontra pouco espaço para se manifestar. “Fracassomaníacos”, “nhénhénhé”, “não há alternativas” são as expressões cunhadas nesses tempos. Faz-se de tudo para que a economia não seja sequer parte dos debates desse período, quando deveria ser o centro.

O Brasil saiu de um período de 21 anos de ditadura política, em 1985, entre outras coisas porque a economia rateava. O país, quebrado em 1982, estava em recessão, a inflação explodira e o povo estava indômito contra as más condições de vida. Passamos cinco anos – de 1985 a 1990, que coincidiram com o governo José Sarney – de intensa disputa de rumos.

Governo em disputa mesmo
Aliás, o governo Sarney foi o governo mais disputado dos últimos vinte anos. Não havia um roteiro preestabelecido. Tivemos ali a mais progressista e preparada equipe econômica do período, constituída por Dílson Funaro, João Sayad, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manoel Cardoso de Mello e Paulo Nogueira Batista Jr. Nunca mais o país viu algo semelhante. De Marcílio a Mantega, impera o que os argentinos chamam de “pátria financeira”.

A orientação liderada por Funaro durou cerca de um ano e meio e tinha como norte o documento “Esperança e mudança”, o programa do PMDB de 1985, talvez o melhor texto partidário pós-ditadura. Francamente anti-liberal, foi também uma espécie de baliza para as teses de democratização, soberania e reorganização do Estado na constituinte de 1988. O PMDB não é mais o mesmo, mas estas são páginas que valeria a pena recuperar. Foi possivelmente o último projeto de país articulado a partir de um ponto de vista progressista e democrático que tivemos. Encarava o Brasil como uma totalidade e não a partir de demandas setoriais. Não buscava particularizar pretensas idéias miúdas desconectadas do foco econômico.

A ditadura econômica subverteu essa lógica. Segmentar e tentar fazer com que o debate se dê em raias estreitas é a melhor maneira de não se voltar para o centro articulador de tudo. Por isso o modelo econômico, que freia o desenvolvimento, corta investimentos e impede o país de crescer, enquanto os lucros bancários atingem patamares pornográficos, tornou-se um não-tema nesta campanha eleitoral. Tudo é tudo e nada é nada.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Carta Maior, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Marcadores: